Sou órfão do Douglas Adams e ainda não superei a despedida abrupta em O Salmão da Dúvida. Na verdade adiei a leitura desde último e até me lancei a ler uma biografia do Adams na tentativa de prolongar o prazer maluco de ler as histórias absurdas, de uma ficção científica crítica e de fazer gargalhar. Talvez também por conta desse apego eu tenha postergado a leitura de tantos autores reconhecidamente talentosos, cujos livros eu até já tenho. Foi assim com o Philip K. Dick. Qualquer pessoa, no mundo ocidental, que tenha por volta de trinta anos ou mais, com mínimo interesse por filmes ou que tenha sido forçado pelas circunstâncias da década de 90 a assistir o que passava na TV aberta, deve ter visto algum filme ou série baseada na obra do Philip. Melhor: É impossível que você tenha sido exposto aos filmes da década de 90 e não tenha conhecido algo da obra de K. Dick.

Peguei a versão em ebook por acaso, da lista de obras disponíveis no prime reading, num sábado a noite enquanto esperava no quarto de meus filhos que eles pegassem no sono. Li o primeiro capítulo, as crianças dormiram sem que eu percebesse, li o segundo, ia iniciar o terceiro quando percebi que as crianças já estavam num sono pesado. Li 40% do livro nessa noite, mais uns 20% no dia seguinte no tempo que tive disponível e nesse ritmo terminei o livro em cerca de três dias. Se eu tivesse me dedicado, teria terminado em dois. O que me motivou não sei ao certo. Talvez tenha sido a saudade de um texto leve como o Mochileiro do Adams, talvez a ingenuidade do futuro imaginado pela geração dos anos 50 ou a história simples mas bem escrita. Certeza é que algo me prendeu instantaneamente e me fez avançar de uma forma que eu não conseguia há anos: entrar tanto no livro que deixo de perceber que estou lendo.
O ambiente pós apocalíptico, a estranha fixação do protagonista com a ovelha elétrica que possui, a religião apresentada como ápice da capacidade humana de sentir o outro, o bagulho. Todos os elementos levam você para esse mundo, te conduzem a visualização de um mundo confuso, complicado e extremamente cativante. Você se sente curioso para descobrir o que cargas d’água é o mercerismo, qual é o motivo dessa fixação toda com animais criados em terraços, como irão se cruzar as histórias dos dois personagens apresentados no início da trama. Talvez a conclusão não seja tão brilhante e muitas perguntas fiquem sem resposta, mas o caminho até o fim foi tão interessante que você não se sente decepcionado.
Eu particularmente nunca assisti Blade Runner. Ouvi falar muito bem, professores na universidade recomendavam, mas eu nunca fui lá e assisti. Assistirei tão logo termine de ruminar a leitura de Andróides sonham com ovelhas elétricas?. É bem provável que eu não vá curtir, mas ao menos uma coisa é certa: se o filme mantiver a essência da obra que a inspira, o teor filosófico impregnado numa história simplista, certamente será uma boa experiência.