
Eu tenho um Kindle, mas não deixem que esse fato os façam pensar que sou um leitor voraz. Houve um tempo em que fui, de fato, nos idos anos do fim da adolescência e inicio de vida adulta, mas muita coisa mudou desde então. Quando eu era criança e ainda nem era alfabetizado, já gostava de folhear livros e revistas e ficava imaginando as histórias ali contadas com base nas figuras da página. Apesar de naquela época minha família ser bastante pobre, eu consegui ter acesso a vários materiais impressos, principalmente quando os vizinhos se desfaziam de jornais e revistas antigos ou dos livros didáticos ao final do ano. O primeiro livro de mais de cem páginas que li, por volta dos meus dez anos, foi A Maldição do Faraó de Sérsi Bardari naquela famosa coleção Vagalume, que eu consegui com um vizinho que ia jogá-lo no lixo. Não lembro ao certo quanto tempo levei para ler, sei que foi bastante. Eu tinha preguiça de ler aquilo tudo, mas ficava curioso para entender o porque das ações mostradas nas gravuras. Pra falar a verdade eu nem lembro do enredo, muito menos do final, portanto minha memória afetiva não esta ligada à obra em si, mas ao objeto. É aquele livro em especifico, com sua capa enigmática, suas gravuras estranhas e todos os anos que passei encarando – sem ler – suas páginas na esperança de decifrar seus mistérios como quem decifra os hieróglifos de uma tumba egípcia perdida, que me é especial e não sua história.


Eu gostava de ter livros, me sentia especial, inteligente, como esses grandes personagens de filmes, que estão sempre envoltos em suas bibliotecas, descobrindo algo fascinante, forjando novos conhecimentos para o futuro. Guardei com todo o cuidado que uma criança consegue ter, os livros que conseguia, vez ou outra quando alguém decidia se desfazer dos materiais escolares mais antigos dos filhos. Com meu primeiro emprego, aos 15 anos, passei então a poder comprar livros. O ano era 2005 e o salário mínimo era muito menor do que é atualmente, mas para um adolescente que não tinha renda, trezentos reais era um senhor avanço na vida. Assim como é hoje, se bem que atualmente o salário gira em torno de mil reais e é comum encontrar promoções de livros – decentes – a dez ou vinte reais em feiras do livro e até em grandes varejistas, naquela época livro era caro para quem recebe o mínimo e comprar livro era um ato raro, executado somente após meses de muitas visitas às livrarias para namorar os títulos e escolher aquele que valesse o gasto, afinal custava em torno de 10% do salário. Lembro como e onde, não o porque exatamente, mas foi nessa época em que comprei meu primeiro livro de filosofia, certamente um dos responsáveis por me fazer seguir nesse caminho alguns anos depois. Custou algo em torno de trinta e cinco reais, – lembre que o salário era trezentos! – numa edição da Loyola com capa de papel pardo que hoje esta puída e não permite mais que se leia Rubem Alves, Filosofia da Ciência: Introdução ao jogo e suas Regras. Foi uma compra que me agradou tanto que, alguns meses depois, quando fui convidado para o aniversário de uma colega de trabalho e sem saber o que dar de presente para ela, decidi comprar um exemplar desse ótimo livro que havia lido.

Quando entrei para a universidade expandi meu mundo. Já era adulto, tinha guardado uma quantia de dinheiro que me permitiu estudar por quase dois anos sem precisar transferir para minha mãe os gastos de material da universidade, e claro, podia me dar ao luxo de continuar visitando livrarias pra namorar os livros mesmo que dificilmente comprasse algum. Foi na universidade que consegui entender o conceito de sebo, que sendo honesto, até então era o tipo de estabelecimento que eu não tinha interesse de visitar por conta dessa péssima escolha de nome. Havia na UnB uma senhora estrangeira, peruana se não me falha a memória, que vendia livros novos e usados em uma banca, que muito lembrava o mostruário de uma feira livre, na entrada do maior prédio da universidade onde se concentravam a grande parte das atividades estudantis. Sempre que podia, eu parava ali para ver se os títulos que eu namorava ainda estavam esperando eu ter coragem de comprá-los ou se outra pessoa os havia levado. Acabei fazendo amizade com a senhora dona da banca. Certa vez, conversando com ela sobre querer comprar vários livros sendo um estudante que precisa economizar para se manter num curso que ocupa, aleatoriamente, horários da manhã e tarde e portanto impossibilita trabalhar em meio período, ouvi dela a história de um antigo aluno que queria muito comprar vários títulos e que, ao se graduar, conseguir um emprego e resolver suas dívidas, voltou na banca e se presenteou com todos os livros que queria.
O ideal da pessoa esforçada que, depois de tanto tempo de estudo e trabalho, finalmente chega num patamar confortável, não necessariamente rico, mas que pode se presentear com tamanha extravagância, com itens que são consumo mas que ao menos trazem um ganho inquestionável para o comprador – se lê-los, claro – me pareceu um bom objetivo durante aqueles anos. O fato é que quando finalmente conclui meu curso outros gastos foram prioridade: mudei de estado, precisei me estabelecer numa nova cidade, mobiliar minimamente a casa, casar, pagar as dívidas dos anos de universidade, e o desejo de cumprir aquela auto promessa foi aumentando. Foi lá pelo quarto ano de formado, já pai, que pude me voltar para o projeto antigo de ter livros e aí, lentamente, aproveitando promoções, frequentando raramente sebos e livrarias, a tal estante do título foi ganhando seu conteúdo, sem necessariamente serem consumidos na mesma velocidade, mas também sem que fosse uma busca desenfreada por lotar prateleiras e mais prateleiras com livros que eu jamais pretendo ler. A questão é mais sensível, como veremos na próxima postagem.