A Casa das Belas Adomecidas, de Yasunari Kawabata

Sabe quando alguém te conta a premissa de algum filme, série ou livro e aquilo lhe soa interessantíssimo e potencialmente bom? Daí você interrompe o que quer que seja seu entretenimento naquele momento da vida, com o objetivo de encontrar tempo para poder conhecer a obra recomendada e entra nela com todas as forças, na expectativa de que vá ser uma excelente experiência? Então… Não faça isso!

Aconteceu comigo. Nunca havia ouvido falar do Kawabata, mesmo ele sendo um dos laureados com o Nobel de Literatura. O contato com sua obra, especificamente o livro aqui analisado, aconteceu durante a escrita da minha dissertação de mestrado. Um dos artigos que usei na pesquisa toma A casa das belas adormecidas como caso a ser estudado e desenvolve seu tema ao redor da hipótese de relacionamento empático com as tais belas adormecidas. Deixo a referência ao final do texto. Enfim, o artigo foi tão bem escrito que me vendeu a premissa do livro e me peguei desejando colocá-lo na frente da fila de leituras. Comecei a lê-lo em março, o progresso foi lento, retornei com disposição em setembro e me obriguei a terminá-lo quando chegou outubro. Uma luta.

No livro, Yasunari Kawabata propõe uma casa que oferece um serviço diferente: Passar a noite com meninas virgens despidas, adormecidas antes da chegada do cliente até depois de sua partida na manhã seguinte. As regras são rígidas, apesar de muitas não serem expressas claramente ao longo do texto, deixando para o leitor a função de decifrar ou imaginar a extensão delas. O único público aceito são homens idosos que já não possuem sua virilidade mas que desejam reviver a experiência de ter ao seu lado mulheres com o calor da juventude. Eguchi, o protagonista, é um homem de 67 anos que, segundo seu pensamento, é idoso, mas ainda não perdeu sua virilidade completamente. Ele chega à casa através da recomendação de um amigo, também frequentador do lugar. Lá passa algumas noites, sempre com uma garota diferente, somente dormindo ao lado delas. No que pese a estranheza da premissa, o potencial narrativo é grande, e foi suficiente para que eu me interessasse pela leitura, porém o desenvolvimento não foi de meu agrado, possivelmente por ser uma obra que segue uma estética diferente da que estou habituado e tenha sido escrita na década de 1960.

O principal problema para mim foi que a premissa é extremamente interessante, mas a história não vai para lugar algum. Eguchi chega na casa, o autor descreve em detalhes cada elemento do lugar, do corpo da moça, das sensações e pensamentos de Eguchi, levando o protagonista a relembrar momentos do passado tendo como gatilho uma gota de suor, a tonalidade do seio da moça adormecida, um grunhido dado por ela enquanto sonhava ou até o som do mar distante. Feita a viagem às memórias do protagonista, ele decide tomar comprimidos oferecidos pela cuidadora da casa e adormece, acordando na manhã seguinte e partindo da casa. Para mim pareceu que o autor cria uma tensão sobre a situação da casa e das moças, insinua a possibilidade de que algo vá dar errado, inclusive fazendo o protagonista desejar fazer algum mal para a moça, apertar-lhe o pescoço, morder a pele até provocar uma ferida etc, mas isso nunca se desenvolve. Eguchi continua retornando à casa e tendo seus devaneios sem que isso pareça afetar seu julgamento da situação ou levá-lo a uma evolução de atitude, seja para bem ou mal. [Spoilers à frente] O livro se encerra de forma repentina, em um capítulo que começa com Eguchi chegando na casa e questionando a cuidadora sobre a morte de um de seus frequentadores. Ao se dirigir para o quarto, descobre que terá não uma, mas duas moças como companhia e uma delas vem a falecer na madrugada, sem maiores explicações. A narrativa termina com a remoção do corpo da moça e Eguchi retornando para a cama, ficando ao lado da moça que resta. É isso.

Talvez eu tenha cometido o erro frequente de prever os rumos da narrativa e esperar explicações sobre a natureza da tal casa. Talvez o livro não seja mesmo a obra de arte que eu esperava. Talvez…

Não foi um livro fácil para mim, o elemento sensual me incomodou demais, fazendo com que eu colocasse a leitura em hiato duas vezes. Não recomendo a leitura, muito menos para jovens, mas se você for se aventurar, esteja avisado de que é uma obra incômoda.

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